"Você quer um plano de detalhe?"
A "vacaiada" cercou o cameraman. Era chifre de tudo que era lado.
"Você quer um plano de detalhe?"
Dizia o cinegrafista rodeado por centenas de vacas com chifres pontudos…
O trabalho desta vez era um audiovisual para uma empresa Textil, que iria veicular na Itália. A ideia era gravar sobre o Rio Grande do Sul, com vacas, gado, o típico gaúcho do campo. Então, foi decidido que se iria à Vacaria, filmar nas invernadas de lá. Na época, não existiam produtoras de vídeo e era a TV Caxias quem cedia os equipamentos e o cameraman. O cameraman da época foi o Sérgio, com sua voz rouca e grossa de locutor. Não era o melhor cameraman do mundo, mas tinha uma coragem que muitas vezes compensava.
Quando a equipe chegou na tal invernada, montou equipamento e ficou esperando que a "peonada" fosse buscar as vacas. Estas apareceriam e desceriam por uma coxilha de pasto ralo. Já posicionados em frente ao lugar, com tripé, VT e tudo mais, o Waner Biazus falou:
- "Sérgio! Te prepara! Você não está dando nenhum rasante, tem que gravar coisa boa!"
- "Pode deixar! Tu vai ver cada cena. Vou compensar a do avião" (essa é outra história que consta na lista).
Depois de meia hora de espera, começaram a ouvir os assobios, o "êêra boiada" e latidos dos cachorros. Mas nada das vacas! Atrás da coxilha começou a levantar um poeirão e nada! Dali um pouco, a coxilha se encheu de vacas, descendo loucamente morro abaixo na direção da equipe. Parecia um "estouro de boiada" daqueles vistos no cinema.
- "Sérgiooooo! Lá vem elas!", gritou o Waner antes de se enfiar dentro do carro, junto com o motorista.
A "vacaiada" cercou o cameraman. Era chifre de tudo que era lado, empurrando o coitado pra lá e pra cá.
- "E aí Biazus, tu quer um plano de detalhe? Do chifre? Do focinho? Das patas? Do rabo?", perguntava o corajoso.
E foi captando o que dava, de tudo que era ângulo e jeito, ao mesmo tempo que assobiava uma musiquinha que só ele sabia, tentando manter sua integridade física, no meio daquele bando de vacas.
O Waner, bem seguro dentro do carro, estava achando aquilo maravilhoso e esperava ansioso pelo trabalho final.
Depois que o Sérgio já tinha sido empurrado por um monte de vacas, evitado chifradras de todos os lados e já estava meio tonto com tanta mugida, chegaram os peões enchendo o cara de elogio:
- "Nossa! Peão muito corajoso. Ninguém fica parado no meio dessas vacas sem estar bem firme na sela de um bom cavalo. Eu já teria saído correndo!"
O Sérgio estufou o peito, todo orgulhoso:
- "A gente faz qualquer negócio pra trazer cenas boas pro Biazus".
Verdade. O pobre do Sérgio até fazia. Mas mais uma vez a coragem não foi suficiente e muito pouco do trabalho foi aproveitado. A vontade do Biazus era de deixar o cameraman sem câmera e sem tripé no meio de um rebanho de "vacas loucas".
Clique aqui e leia a "História do Avião" com o mesmo cameraman.
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